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O 9º Passageiro
06-Mar-2026
By: Toni Campos
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A chuva caía sem cessar, golpeando o casco da Arca como tambores de guerra.
O ranger da madeira misturava-se ao rugido das águas que engoliam o mundo.
Dentro, os oito sobreviventes se acomodavam entre o cheiro de feno e o resfolegar dos animais.
O silêncio era pesado, mas não absoluto. Havia algo mais.
Um passo. Um olhar. Uma sombra que não pertencia a nenhum deles.
Sem acorda no meio da noite, convencido de que alguém o observava.
Jurava ter visto uma silhueta junto ao leão, imóvel, como se fosse parte dele, pensativo:
“Eu vi... não era homem, nem fera. Era algo entre os dois.”
Sem franziu o cenho e murmurou:
— Não era nenhum de nós.
No dia seguinte Cam sentiu ter ouvido uma respiração atrás de si, enquanto alimentava os animais.
— Não era nenhum da família, ele pensa:
“ Eu sei distinguir. Era uma respiração pesada, como de um gigante.”
Inquieto, olhou em volta e fala consigo mesmo:
— Talvez seja apenas um animal que se soltou.
Ao contar para sua esposa ela diz ter visto reflexos nos olhos dos animais, como se uma nona pessoa estivesse ali, refletida.
— Não era nenhum de nós. Eu vi claramente — diz assustada.
Jafé sonhava repetidamente com uma figura que caminhava sobre as águas dentro da própria Arca e ao acordar contou para sua esposa o sonho:
— Ele não fala, mas me olha. E quando me olha, sinto que carrego algo que não deveria.
A esposa de Jafé aperta o braço do marido e diz que, certa noite, ouviu passos no convés superior.
— Subi para ver... e não havia ninguém. Mas o chão estava marcado, como se pés maiores que os nossos tivessem passado.
Numa manhã a esposa de Sem percebeu que, ao se aproximar dos pássaros, eles se calavam de repente, como se aguardassem a presença de outro.
— É como se obedecessem a alguém invisível.
Certa noite, reuniram-se todos no centro da Arca. A tempestade rugia, mas o que os movia era o medo.
Cada um conta ter sentido uma presença estranha na arca, que não parecia natural.
Sem inicia:
— Eu vi algo junto ao leão. Não era homem, nem fera.
Cam retruca:
— Eu ouvi atrás de mim. Era respiração de gigante.
Jafé acrescenta:
— Eu sonhei com ele. Caminhava sobre as águas.
A esposa de Sem diz:
— Os pássaros se calaram diante dele. Obedecem a alguém invisível.
A esposa de Cam completa:
— Vi reflexos nos olhos dos animais. Não eram nossos.
A esposa de Jafé fala, com voz trêmula:
— Subi ao convés. Havia marcas de pés maiores que os nossos.
As esposas se entreolharam, cada uma trazendo sua própria visão, e sua própria sombra.
O silêncio que se seguiu foi mais pesado que o rugido da tempestade. Ninguém ousou concluir. Ninguém ousou expulsar.
Cada olhar desconfiado percorria o círculo dos oito, como se buscasse sinais ocultos: um gesto, um brilho nos olhos, uma sombra na pele.
Noé se mantinha em silêncio, mas em seu íntimo lembrava-se das histórias dos nefilins, filhos dos anjos que se misturaram com a terra e pensava:
“ Talvez o Senhor tenha permitido sua entrada para nos provar. Talvez seja tentação. Talvez seja aviso.”
Cam, mais ousado, sugere:
— E se for um de nós? E se algum de nós carrega em si o sangue misturado?
Sem rebate:
— Não. Eu vi claramente. Não era nenhum de nós.
Jafé, hesitante:
— Mas nos sonhos, sinto que sou eu. Que o nono está dentro de mim.
A esposa de Cam olha para o marido:
— Talvez sejamos todos. Talvez o nono seja a soma de nossos medos.
Noé conclui:
— Seja quem for, não podemos expulsá-lo. Se é prova, devemos suportar. Se é aviso, devemos ouvir.
Ninguém ousa falar mais. Mas todos, no íntimo, sabiam que havia um nono. E ninguém sabia quem era.
O silêncio que se seguiu foi mais pesado que a própria tempestade.
Cada um carregava sua versão, sua visão, sua suspeita e se perguntavam, em segredo, se o intruso não estaria entre eles mesmos.
A cada noite, o nono passageiro parecia mais próximo, mas nunca se mostrava.
Era como se fosse uma projeção coletiva, nascida do medo, da memória dos anjos caídos ou da culpa que cada um carregava.
Quando as águas começaram a baixar, a presença desapareceu.
Não se soube se desceu com os animais, se se dissolveu na luz, ou se permaneceu invisível até o fim da viagem.
Mas o silêncio que deixou era pesado.
E cada um dos oito carregou para a nova terra a lembrança de que, entre eles, havia estado um ser que não se contava — talvez um nefilim, talvez apenas um eco dos céus, talvez uma projeção de seus próprios medos.
A dúvida permaneceu, como uma marca invisível na nova humanidade: quem realmente sobreviveu ao dilúvio?
Quatro homens, quatro mulheres... ou mais alguém?
Fonte: (Bíblia; IA Copilot)
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Toni Campos
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